Shorin-Ryu

História

As raízes do estilo Shorin-ryu se confundem com as raízes do próprio Karate e remontam ao final do século XVIII, na ilha de Okinawa. Àquela época, a ilha era a sede do hoje extinto Reino de Ryukyu, que englobava todas as ilhas do Arquipélago de Ryukyu, hoje pertencentes ao Japão. De fato, um preciso estudo das origens do Karate não pode ser feito de forma dissociada do estudo da cultura de Ryukyu. Nesta seção, a periodização histórica utilizada será baseada na vida dos mais importantes Mestres do estilo Shorin-ryu.

Peichin Takahara (1683 – 1760)

Peichin Takahara,  nasceu na vila de Akata Cho em Shuri do sul da Ilha de Okinawa no ano de 1683. Era da classe superior na sociedade feudal de Okinawa. Supõe-se então que fosse bem educado e que tenha feito viagens. Foi conhecido como um astrônomo e um fabricante de mapa. Seus mapas de Okinawa e das Ilhas de Ryukyu foram usados em 1797 em plantas do Japão para impedir invasões dos europeus mais freqüentes na região. Ryukyu foi considerado como as primeiras linhas de defesa do sul.

Um de estudantes superiores de Takahara era Sakugawa, conhecido mais tarde como Tode Sakugawa e seu sucessor conforme desejo final no seu leito de morte.

Peichin Takahara, era um praticante completo. Sua filosofia foi passada aos sucessores, como Sakugawa, Matsumura, Itosu, Funakoshi e muitos outros… o mestre acreditava que, o “karatê Jutsu é uma maneira de vida, a maneira de compreender e a forma de preservar o karatê Jutsu era através do kata, e com a luta real do kata as técnicas podem ser ensinadas.”

Esta é a essência do legado de Peichin Takahara. Afastou-se em 1762 pois sabia que Sakugawa cumpriria suas visões e ajustaria o curso para o futuro de todo o karatê Jutsu.

Entre suas realizações, recebeu o título de “Peichin” (dirigido) pelos distintos serviços prestados.

Foi uma figura importante na evolução do Karatê-Dô. Foi o primeiro mestre a explicar o sentido da palavra “Dô”, e como ela é aplicada ao Karatê. Ele cita três aspectos do “Do”, a saber: igo, o caminho ou o aspecto espiritual; ho, aplicação de defesa pessoal; e katsu, prática e entendimento das técnicas físicas.

Tode Sakukawa (1733 – 1815)

Nascido em 1733 em Shuri , ainda jovem iniciou em 1750 seus estudos da arte marcial okinawense (Okinawa-te) sobre a tutela do monge Takahara Peichin (1683-1760) de Akata.

Um encontro casual fez com que ele conhece o expert em arte marcial chinesa conhecido como Kushanku em 1756. Ele treinou com Kushanku durante 6 anos em Kumemura.

Aos 29 anos de idade recebe uma mensagem de Takahara para que retornasse a Shuri urgentemente e obedecendo ao seu pedido encontra o antigo mestre adoecido, mas a tempo de ouvir seu pedido para que após a sua morte ele o substitua continuando a ensinar tudo o que aprendeu. Dois dias após o encontro, Takahara morre.

Por volta de 1762, mestre Kusanku regressou para a China , e ele volta para Shuri começando a ensinar uma combinação do que aprendeu com os dois mestres, tornando-se com seu sistema de treinamento o primeiro mestre de To-de. Pelos méritos de seus serviços prestados ao rei de Okinawa, exercendo a função de Juiz de Paz, foi honrado com o título de Satonushi.

Muitos de seus alunos tornaram-se grandes mestres, entre eles Okuda, Makabe e Matsumoto.Quando Sakugawa tinha 78 anos, o jovem Sokon Matsumura veio de Shuri e pediu para que o instruísse na arte combate. Com isso a era dos grandes mestres na arte marcial okinawana da escola Shorin começou. Sakugawa morreu em 7 julho de 1815.

Sokon Matsumura (c. 1800 – c.1890)

 

Nascido em Shuri, Okinawa, por volta de 1796, Sokon Matsumura começou seu treinamento com o lendário mestre Sakugawa, um dos pioneiros do Karatê.

Mestre Matsumura viajou para China em missões diplomáticas, onde conheceu e estudou diversas escolas de artes marciais chinesas. De volta a Okinawa tornou-se professor da guarda da família imperial, sendo o primeiro mestre a dar nome próprio ao seu sistema marcial, anteriormente conhecido por Shuri-Te por se basear na cidade de Shuri. Chamou de Shorin-Ryu , sendo Shorin a pronuncia nativa para Shaolin.

Entre seus estudantes mais dedicados podemos destacar Mestre Kanryo Higaonna fundador do Naha-Te e Choki Motobu, famoso lutador Okinawano que venceu um lutador russo em um desafio e lançou o Karatê como método de combate pelo mundo afora.

Mestre Matsumura costumava dizer .: “ Se quer entender a verdade da Arte Marcial, deve estudar assiduamente. Na sua base, as artes plásticas e literárias e as Artes Marciais são uma mesma coisa.”

Anko Itosu (1831 – 1915)

Aluno de Matsumura, Itosu esteve presente em momentos decisivos da História de Ryukyu e do Japão. Era ele o General Supremo do Reino quando de sua anexação ao Japão, em 1879. De fato, até o momento em questão, Ryukyu vivia uma situação muito peculiar. Se por um lado, seus governantes e sua população demonstravam uma ampla preferência pela China (em todos os sentidos), por outro, o Japão considerava (desde 1609, quando o Daimyo de Satsuma obteve autorização do Shogun para invadir a região a fim de puní-la por não ter aceitado participar na campanha de anexação da Coréia, em 1590) a região como um protetorado e, inclusive, só não a tinha anexado formalmente a seu território, porque, com o fechamento do Japão aos países estrangeiros, no século XVII, a situação de Ryukyu e seu intenso comércio com a China funcionavam como uma forma de burlar o sistema e introduzir produtos estrangeiros (principalmente chineses) no Japão. Contudo, com a Restauração Meiji, tal mecanismo já não se fazia necessário e como a China, envolvida em milhares de problemas devidos à ocupação estrangeira de seu território e às Guerras do Ópio, se encontrava impossibilitada de oferecer resistência ao expansionismo nipônico, o Japão consolidou seu domínio sobre Ryukyu.

Mestre Anko ItosuPercebendo que era impossível resistir a um adversário tão superior, Ryukyu se rendeu sem luta e sua nobreza passou a colaborar com os japoneses a fim de manter o status de que dispunha. O próprio Rei Sho Tai, último monarca de Ryukyu, foi morar em Edo (Tóquio), onde recebeu o título de Kazozu (equivalente a Marquês). Com esse intuito colaboracionista, Itosu trabalhou incansavelmente para fazer o Karate ser introduzido no Japão. Acreditava que, caso fosse bem sucedido, poderia vir a gozar de uma posição influente junto às Forças Armadas do Imperador Meiji. Contudo, devido à grande influência chinesa sobre o Karate da época (até mesmo muitos dos golpes possuíam nomes em chinês), a arte marcial não encontrou receptividade num Império sinófobo como o japonês. Itosu fracassou.

A despeito de seu fracasso em tornar o Karate uma arte marcial japonesa, Itosu deu grandes contribuições pessoais a ele. Uma das mudanças introduzidas pelo Mestre no Karate foi o treinamento com Makiwara, espécie de boneco de madeira rígida, para calejar as mãos e os pés, a fim de potencializar os golpes. Outra grande inovação de Itosu foi ter tornado o Karate mais acessível às crianças através da invenção dos primeiros Kihons e da divisão do imenso Kata Naihanchi, criado por seu Mestre, em três Katas menores: Naihanchi Shodan, Nahanchi Nidan e Nahanchi Sandan. Esses Katas seriam uma forma de se introduzir as crianças ao Karate e, uma vez dominados, fariam delas praticantes de nível intermediário. Itosu, contudo, acreditava que havia uma grande diferença nos níveis de dificuldade apresentados pelos três Naihanchi e pelos demais Katas, criados por Matsumura e por Sakukawa, sendo assim, como forma de ensino intermediário, ele particionou os dois Katas Kusanku (criados por Sakukawa) em cinco Katas menores, os quais batizou de Pinan, a dizer: Pinan Shodan, Pinan Nidan, Pinan Sandan, Pinan Yondan e Pinan Godan.

Há uma grande discussão histórica sobre o papel de Itosu em relação ao Karate em geral e ao estilo Shorin-ryu em particular.

Quanto ao Karate, não se pode precisar se o criador da arte marcial foi Matsumura, Sakukawa ou Itosu. Os que defendem a tese de que Sakukawa foi seu criador consideram que ele foi o primeiro a reunir os ensinamentos do Te e do Kung Fu numa só arte. Os que defendem que Matsumura tenha sido seu criador argumentam que ele foi quem mais contribuições deu àquela arte nascente e que Sakukawa teria sido um mero praticante de duas artes marciais (como hoje existem tantos). Por fim, aqueles que argumentam que Itosu teria sido o criador do Karate se apegam ao termo em si, que, ao que parece, não havia sido utilizado antes de Anku Itosu. Contudo, aos defensores dessa tese, cabe lembrar que o termo só se popularizou após a morte de Itosu, sendo que em sua época (como pode ser conferido na carta que escreveu e que hoje é conhecida como “Os Dez Preceitos do Karate”), o Karate ainda era majoritariamente conhecido como Tang Te, ou seja, Mão Chinesa e não Mão Vazia, como hoje.

Quanto ao estilo Shorin-ryu, a discussão parece mais simples. Embora pareça contracensual, visto que o Shorin-ryu é um estilo de uma arte marcial (o Karate), ao que parece, sempre houve a consciência de que aquela arte havia sido trazida da China e que advinha do Kung Fu dos monges Shaolin, sendo assim, é muito provável que o Estilo praticado por Itosu já fosse chamado de Shorin-ryu mesmo em tempos anteriores a esse Mestre (como também se pode supor através da leitura de “Os Dez Preceitos do Karate”). De qualquer forma, como sempre ocorre com fatos históricos embasados na História Oral (uma vez que a escrita era muito pouco disseminada em Ryukyu), há discordâncias sobre esse tema e, embora alguns debatam sobre se Matsumura ou Itosu seria o fundador do Estilo, o único consenso que existe é que Chibana foi seu primeiro Grão-Mestre.

Choshin Chibana (1885 – 1969)

Ao contrário de Matsumura, que teve grande dificuldade para encontrar um discípulo à altura de suas técnicas, Itosu encontrou discípulos de qualidade em grande abundância, talvez por ter se empenhado na disseminação do Karate por Okinawa através de sua implantação no ensino público regular. Seja como for, ao menos cinco de seus discípulos merecem alguma nota de importância: Anbun Tokuda (1886 – 1945), Shugoro Nakazato (1921 – 2008), Yuchoku Higa (1910 – 1994), Gishin Funakoshi (1868 – 1957) e Choshin Chibana.

Gishin Funakoshi, fundador do estilo ShotokanCom a morte de Itosu, seus discípulos se desentenderam acerca da sucessão do Mestre, mas coube a Chibana ocupar o título de Grão-Mestre do estilo. Muitos vêem neste ato a criação do Shorin-ryu, enquanto outros apenas vêem a consolidação de sua existência já então muito antiga. Seja como for, Tokuda e Motobu mantiveram-se fiéis ao estilo que aprenderam com seu Mestre e, embora não aceitassem plenamente a autoridade de Chibana, não ousaram criar dissidências. Funakoshi, contudo, tentou fazer o que seu Mestre não havia logrado: levar o Karate para o Japão.

Tecnicamente, com a anexação de Ryukyu, o Karate já era uma arte marcial japonesa, mas a verdade é que ele era quase desconhecido (e visto com maus olhos) no arquipélago principal; assim como tudo o que vinha de Okinawa que, até hoje, é a prefeitura mais pobre e negligenciada do Japão.

Para levar o Karate ao arquipélago principal, Funakoshi dedicou-se a alterá-lo a fim de contornar a intolerência japonesa para com os costumes e idéias de origem chinesa. Assim, alterou nomes (traduzindo todas as palavras chinesas para o japonês; diz-se, inclusive, que o próprio nome Karate seria uma niponização de Tang Te, usado até então, sendo que o som das duas expessões é muito semelhante e Funakoshi teria passado a escrever Karate também a fim de nipozar a arte marcial) e algumas bases, de modo a criar diferenças sutis, mas suficientes para tornar a arte marcial palatável aos japonses. Fundou então um dojo, ao qual deu (ou, segundo outra versão da história, seus alunos deram) o nome de Shotokan, literalmente, “Escola do Shoto”, sendo que Shoto (Vento nos Pinheiros) era seu apelido. Até mesmo o uniforme de treino do Karate foi niponizado, uma vez que o primeiro Karate-Gi utilizado por Funakoshi era, na verdade, um Judo-Gi, ou seja, um kimono de Judo.

Enquanto Funakoshi fazia progressos na inserção do Karate no Japão, Chibana via enfrentava dificuldades na manutenção da unidade do Estilo Shorin-Ryu.

Katsuya Miyahira (1918 – atual)

Após a morte de Chibana, o título Grão-Mestre do estilo Shorin-ryu passou a seu mais proeminente discípulo: Katsuya Miyahira.

Miyahira assumiu um estilo em franca fragmentação, com o surgimento de diversas escolas a ele filiadas, mas independentes em termos de autoridade. Ele percebeu que se não fizesse nada, não só o eixo nuclear do Shorin-ryu estaria comprometido, como também a sua própria existência, visto que a tendência das diferentes escolas era virem a se tornar estilos propriamente ditos, como acontecera com a Shotokan de Funakoshi no Japão.

A fim de competir com as escolas nascentes, Miyahira transformou seu dojo numa escola: a Shidokan (“Escola do Caminho do Coração do Guerreiro”). Com sua criação, o Mestre passou a atuar mais diretamente na disseminação do estilo e, dessa forma, vem tentando mantê-lo unido até hoje.

Um dos grandes feitos de Miyahira, enquanto ainda era aluno de Chibana, foi ter se tornado professor do grande mestre Choki Motobu (1870 – 1941), com quem desenvolveu uma relação de mútuo aprendizado.

Uma recente alteração introduzida por Miyahira no estilo Shorin-ryu foi a renomeação dos dois Katas Passai: o antigo Passai Sho (Passai menor) passou a ser chamado Itosu no Passai (Passai de Itosu, em homenagem àquele Grande Mestre do passado); já o antigo Passai Dai (Passai maior) passou a se chamar Matsumura no Passai (Passai de Matsumura).

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